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Segunda-feira, 15 de Julho de 2013
  
Quantos gramas de vida há em 1 quilo de morte?

Curioso investigar o que as pessoas pensam a respeito do que comem. Curioso porque, na moral frigorífica em que vivemos, alimentação e raciocínio somente se encontram quando queremos legitimar aquilo que ingerimos. A moral frigorífica é essa: não pensar sobre o que se come, apenas comer aquilo que se pensa.

  
Por André Guerra e Luiz Eduardo Kochhann
  

 "No começo do Gênese está escrito que Deus criou o homem para reinar sobre os pássaros, os peixes e os animais. É claro, o Gênese foi escrito por um homem, e não por um cavalo. Nada nos garante que Deus desejasse realmente que o homem reinasse sobre as outras criaturas. É mais provável que o homem tenha inventado Deus para santificar o poder que usurpou da vaca e do cavalo" (Milan Kundera, A Insustentável Leveza do Ser).

O Brasil é um país pecuário. Matamos um boi por segundo. Por segundo! 24 horas por dia, durante os sete dias da semana: um boi por segundo. Por mês, são desmembrados 2,4 milhões deles. São 48 milhões de litros de sangue derramados a cada quatro semanas. O equivalente a 20 piscinas olímpicas entupidas de sangue inocente. 

Não é fácil mensurar quanta morte há em 20 piscinas olímpicas cheias de sangue, mas talvez o mais intrigante seja entender o que nos faz poder colocar a morte em termos de mensuração. Seja como for, talvez uma das explicações seja o nosso comportamento passional com o tema.  Sim, passional, uma vez que, de fato, não raciocinamos quando optamos por comer uma picanha ou uma carne de vitela. Talvez porque já tenha raciocinado para nós. Talvez não percebamos que não existe picanha ou vitela, apenas substantivos mais “palatáveis” para resíduos da morte.
 
Curioso investigar o que as pessoas pensam a respeito do que comem. Curioso porque, na moral frigorífica em que vivemos, alimentação e raciocínio somente se encontram quando queremos legitimar aquilo que ingerimos. A moral frigorífica é essa: não pensar sobre o que se come, apenas comer aquilo que se pensa.
 
“Aprendemos desde pequenos que é normal comer animais mortos”.
 
 “Cultura, conveniência e sabor me fazem manter a carne na alimentação”.
 
Apesar de que, comumente, ouçamos argumentos como “desde que o mundo é mundo o homem é onívoro”, e que, portanto, a opção pela alimentação com presença de carne seria por simples racionalidade, vários estudos apontam o contrário. Por exemplo, o estudo “O papel do consumo de carne na negação do status moral e mental para animais”, realizado pela University of Kent, do Reino Unido. Os pesquisadores dividiram 108 participantes em dois grupos. Ambos responderam a um mesmo questionário sobre atributos relacionados direta ou indiretamente à dimensão ética atribuída aos animais. 
 
O primeiro grupo comeu carne antes de dar suas respostas. E o segundo, por sua vez, comeu castanha de caju. Os resultados obtidos indicam que comer carne leva às pessoas a estreitarem sua preocupação moral em relação aos animais. O fenômeno ficou conhecido
como “paradoxo da carne”. Ou seja, a vontade de comer carne pode ser reduzida em função do aumento da preocupação moral para com os animais. O conceito ilustra o fato de os seres humanos não se alimentarem dos animais com os quais possuem proximidade afetiva. De acordo com os pesquisadores, esse mecanismo garantiria a não-contradição da cognição humana. O contrário também é verdadeiro: quanto mais propensos estivermos a comer carne de algum ser, mais distantes estaremos afetivamente dele e, por consequência, menos preocupação moral despenderemos para ele. Isso quer dizer que a moral frigorífica geralmente fala mais alto, fazendo-nos manter um distanciamento racional estratégico daquela porção deliciosa de bacon. Em verdade, infelizmente não somos tão racionais como alardeamos por aí.
 
“Culpa e compaixão fazem parte dessa relação”. 
 
“É uma relação ambígua”.
 
“São seres vivos, assim como nós, ou seja, somos todos iguais”.
 
Uma reflexão interessante seria pensar até que ponto a socialização e suas contradições ocultadas – tal qual o “paradoxo da carne” –
cumprem a função de nos fazer poder colocar a morte em termos de mensuração. Ou seja, por mais que algumas práticas sejam enfaticamente nocivas ao nosso ambiente, comunidade e, inclusive, a nós mesmos, ainda assim conseguimos fazê-las não parecer suspeitas. 
 
De acordo com a Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO), a pecuária – entre todas as atividades humanas – é a maior responsável pela erosão dos solos e pela contaminação de mananciais e aquíferos. Isso porque, enquanto a produção de 500 gramas de carne necessita de, aproximadamente, 6,8 mil litros de água, a mesma quantidade de grãos como feijão ou ervilhas precisa de 818 litros, contendo a maioria dos principais nutrientes da carne. Mas isso não quer dizer muito, afinal picanha e vitela são muito mais saborosas do que feijões ou ervilhas, não é? Talvez.
 
Sem falar nos impactos causados à saúde humana - estudo realizado em Harvard constatou que a carne vermelha aumenta em 20% o risco de morte –, a criação de animais para o abate – ou assassinato, em termos “humanos” – desencadeia uma série de impactos ambientais. Entre eles, estão o desperdício de água e a degradação dos recursos hídricos. Além disso, a pecuária também contribui para a poluição atmosférica. A criação de futuras porções de carne é responsável por 18% das emissões de gases do efeito estufa; 9% de todo o gás carbônico emitido por fontes antrópicas (humanas) – desmatamento para áreas de pasto, por exemplo; 37% do metano; e 65% do gás nitroso. A atividade ainda produz 39% dos resíduos sólidos do mundo, sendo a atividade mais poluente dentre todas (mineração, agricultura, industrial, entulho e residencial). Para ter-se uma ideia, os resíduos urbanos – lixo da nossa residência – representam apenas 2,5% dos resíduos produzidos.  
 
A expansão da fronteira agrícola – principalmente em função do plantio de soja e outros grãos destinados à alimentação do gado produzido em regime industrial – resulta na invasão de terras e colabora frontalmente para o aumento de conflitos agrários, violência no campo e para o êxodo rural. Os impactos sentidos no campo, invariavelmente, terminam atingindo os grandes centros populacionais, em decorrência da migração de trabalhadores rurais despossuídos e sem as competências específicas exigidas pela lógica urbana. 
“A escolha de determinadas dietas alimentares influenciam diretamente no meio ambiente”.
“O meio ambiente e o ser humano são um só, acredito que a criação de animais para abate e pesca industrial sejam práticas antiquadas e contra produtivas, veremos o reflexo disso no futuro”.
 
“Sei dos problemas dos grandes rebanhos, do gás metano, dos frigoríficos, dos aviários, dos matadouros”.
 
Inegavelmente, as nossas práticas advêm do modo como vemos e entendemos a realidade. Ou seja, a atribuição de certo ou errado é tão arbitrária quanto qualquer outro acaso probabilístico. Entretanto, ao percebermos como a sociedade global, principalmente no âmbito ocidental, desenvolve-se, vemos o quanto esse nosso peculiar “consumo” alimentar perdeu seus aspectos arbitrários e estritamente culturais para universalizar-se como uma prática instituída e consolidada na racionalidade contemporânea, inclusive com pretensões “científicas” de verdade. 
 
Tão universalizada e banal tornou-se essa prática que pouco percebemos as consequências e impactos desses hábitos. Talvez, é verdade, algumas vezes percebamos mais do que gostaríamos, afinal de contas, ainda é muito mais prático, cômodo e saboroso permanecermos com nossos sentimentos refrigerados dentro de nossa moral frigorífica. 
 
Possivelmente, em pouco tempo precisaremos nos esforçar cada vez mais para nos convencer de que somos nobres cidadãos ilibados, contribuindo ativamente para o desenvolvimento da “humanidade”. Principalmente, porque chegamos num ponto em que, para avançarmos como humanidade, deveremos admitir que pouco importa o avanço da humanidade para o universo, mas que o contrário não é verdadeiro. Será mesmo que é tão relevante – para o reino mineral, por exemplo – que avancemos enquanto “humanidade”? Sabe-se lá. Talvez até o reino mineral já saiba que não. Impor o homem no centro de um espaço descentrado e fazer todos baterem palmas a cada “progresso” dado dentro de um grande círculo talvez tenha sido uma grande prova de que se alguém sabe disso, não somos nós. A humanidade é uma invenção da própria humanidade, infelizmente ela esqueceu-se disso.
 
Poderia ser trágico, mas é cômico. Digno de gargalhadas desarrazoadas de um louco Nietzsche a abraçar cavalos. A sociedade urbana, confortavelmente acondicionada em seus estábulos morais, quando minimamente desacomodada de sua benevolente rotina, é a primeira a cacarejar vacuidades em ecos de manada. O termo violência é repetido bovinamente à exaustão. A extraordinária capacidade do animal humano em criar representações sobre SUA vida e sobre SEU mundo o faz, ingenuamente, esquecer que, desde o Estado Democrático de Direito até o sujeito que se contempla a esbravejar diante do espelho, tudo não passa de ficções bradadas por um esfarrapado moralista enganando-se alegremente. Tudo isso parecendo estar muito distante da “violência” alheia. 
 
Será mesmo que somos de fato tão “pacíficos” quanto acreditamos ser? Será que somos tão bondosos como nos parece o reflexo narcísico vindo do espelho de um ego antropocêntrico? Não sabemos. São tudo suposições, é claro. Cada qual com suas opiniões e pontos de vista – nada mais saudável para a consolidação de nossa querida e benéfica democracia moral.
 
E aqueles que ousam transcender esse limiar, recusando, obstinadamente, legitimar nossa “cultura”, quem são? Possivelmente passaremos a os perceber cada vez mais próximos de nós, porém cada vez mais distantes de nossa moral frigorífica. Assim como o filósofo alemão posto em irreversível estado de loucura ao ver o sofrimento de um animal, alguns seres humanos rompem os estábulos morais, negando o padrão e a normalidade. Infelizmente, ainda são tratados, na maioria das vezes, com incredulidade – a mais típica reação do animal humano aos desvarios de suas verdades. Entretanto, esses transgressores aprenderam irreversivelmente que há muito mais gramas de vida em 1 quilo de morte do que estamos acostumados a notar.
 
“Por acreditar que o mundo pode ser um pouco mais coerente e menos violento. É claro que tive que reavaliar tudo que havia aprendido”. 
“Uma vez que tu deixa de comer carne, seja lá qual o motivo inicial, a consciência sobre a vida do outro se cria. É uma questão de não tratá-los como algo diferente, descartável e utilizá-los para o meu prazer”
 
Enfim, terminada a reflexão racional, voltemos ao banquete. – Maître, por gentileza, mais uma fatia, dessa vez mal passada, por favor.
 
 
*Texto produzido na Disciplina Jornalismo Ambiental da FABICO/UFRGS sob a orientação da Profa. Ilza Girardi e do doutorando Carlos Dominguez.

 

  
             
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