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Sexta-feira, 09 de Agosto de 2013
  
Celulose Riograndense: redenção ou Síndrome de Detroit?

Fica difícil não enxergar que as populações de Guaíba e do Rio Grande do Sul acabam se tornando, cada vez mais, reféns de um só setor econômico

  
Por MoGDeMA
  

Neste dia 8 de agosto, pela segunda vez, é lançada outra pedra fundamental para a ampliação da indústria de celulose em Guaíba. Agora, trata-se da empresa Celulose Riograndense, do grupo chileno de celulose e papel, Compañía Manufacturera de Papeles y Cartones, CMPC. Ela seguirá sendo sucessora das antigas Borregaard, Riocell e Aracruz. A última pedra tinha sido lançada no dia 27 de agosto de 2008, pela Aracruz, tendo contado também com a presença do governo do Estado do Rio Grande do Sul, por meio da então governadora Yeda Crusius.

Mas, em 2008, a alegria durou pouco. A empresa Aracruz acabou quebrando, tendo que assumir um prejuízo de mais de dois bilhões de reais, resultado de investimentos especulativos perdidos durante a crise financeira mundial daquele ano. Enquanto as maiores empresas do ramo da celulose se livravam dos prejuízos inerentes à fragilidade flutuante do mercado da celulose, alguns milhares de trabalhadores eram demitidos, em Guaíba e arredores.

Entre tantas questões não resolvidas, fica a pergunta costumeira, que intriga a nós, brasileiros: se o negócio era arriscado, como os governos e o Banco de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), que pertence ao povo brasileiro, puderam injetar tanto empenho e mais de meio bilhão de reais em uma empresa que investiu nos chamados derivativos e estava por quebrar?

Agora, no caso da empresa CMPC, que tem em seu comando o chileno Eliodoro Matte, um dos maiores investimentos de celulose do Cone Sul, anuncia-se um investimento de 5 bilhões de reais, valor quase igual ao de 2008. E mais uma vez, se conta com financiamentos facilitados de 2,5 bilhões de reais do BNDES. E, de quebra, consegue-se outro apoio do governo do Estado do Rio Grande do Sul, agora sob a chefia de Tarso Genro, que parece ignorar os riscos socioambientais e econômicos deste novo empreendimento. O Secretário de Desenvolvimento, Mauro Knijnik, chegou a confessar que não estava contente, mas “muito contente”, e que se sentia como “um guri que tinha ganho uma bola nova”. Mas como ficar contente com o investimento em empreendimentos que representam altos riscos uma concentração descomunal de uma só atividade na região?

Nesta forjada “festa” para os gaúchos, entretanto, não se fala das recentes acusações dos movimentos chilenos contra a CMPC, no que toca a denúncias de ocupação por megassilvicultura dos territórios tradicionais dos Mapuches. Tampouco se comenta no Brasil uma grave denúncia dos movimentos pelos direitos humanos no Chile quanto a um possível apoio a uma chacina de 19 pessoas, sendo 14 trabalhadores da empresa, por parte da polícia militar (carabineiros), quando do golpe militar liderado pelo general Augusto Pinochet, em18 de setembro de 1973.

No que toca ao aspecto econômico, a falsa sensação de bonança encobre altos riscos, inclusive econômicos, derivados de megaempreendimentos que realimentam as já conhecidas monoculturas de trágicos resultados socioambientais no Cone Sul. Primeiro,  cabe destacar-se que a atividade será concentrada em exportação de matérias bruta, ou seja, a pasta de celulose, principalmente para os países asiáticos, que estão em queda de suas atividades econômicas. Ou melhor, a gigantesca indústria produzirá celulose branqueada e muito pouco papel, o qual será gerado em sua maior parte em outros países, em situação de desaceleração econômica.

Quanto à concentração de atividade econômica, cabe levantar o risco do que se pode chamar de “Síndrome de Detroit, uma cidade norte-americana, agora decadente e semidesértica, que foi o berço da General Motors, que era responsável pela maior parte da arrecadação e por milhares de empregos, que acabaram se esvaindo à medida que a empresa foi embora da cidade. No Uruguai, Eduardo Galeano destaca que esse tipo de megainvestimentos supostamente redentores, no caso da celulose, com apoios governamentais, podem ser comparados como “salva-vidas de chumbo”, para nações vulneráveis como as nossas.

E, inevitavelmente, a atividade gerará outras tantas centenas de milhares de hectares de monoculturas arbóreas. No Chile, a CMPC possui cerca de meio milhão de hectares destes monocultivos (pinus, eucalipto, etc.). Outras centenas de milhares estão agora no Brasil e na Argentina. E o bioma Pampa, reduzido a 1/3 de seus remanescentes vegetais originais, com mais de 2 mil espécies de plantas nativas (400 delas alvo de biopirataria internacional), segue sendo mira de sua expansão.

Esta preocupação é um exagero? Fica difícil não enxergar que as populações de Guaíba e do Rio Grande do Sul acabam se tornando, cada vez mais, reféns de um só setor econômico. Como exemplo da situação - que pareceria cômica se não fosse absurda - a rede estadual de ensino de Guaíba, depois de décadas de produção de celulose pela indústria, não dispõe de papel para atividades dos professores, como provas, trabalhos, etc.

Quanto à poluição, a situação não é menos grave. O volume de efluentes líquidos industriais aumentará 330%, passando dos atuais 46,4 mil m3/dia para 154,4 mil m3/dia. O professor Flávio Lewgoy, da AGAPAN, destaca a alta poluição gerada pelo branqueamento pelo peróxido e dióxido de cloro que, entre outros processos, poderia gerar dioxinas e furanos, altamente tóxicos, acrescentando: “Dioxina é cumulativa, não tem valor mínimo”.

Enquanto isso, técnicos da FEPAM, da Secretaria Estadual de Meio Ambiente, afirmam que a quadruplicação da empresa geraria uma quantidade de efluentes líquidos, no processo industrial de produção e branqueamento da celulose, de um volume equivalente à metade dos efluentes gerados por Porto Alegre, com 1,5 milhão de habitantes. Quanto ao ar que respiramos, outros técnicos alertam para a situação de ausência de estudos de capacidade de suporte à emissão de outras toneladas de gases poluentes, provenientes da ampliação desta indústria. E cabe lembrar que nossa atmosfera já está bem comprometida, onde  a rede de monitoramento da qualidade do ar permanece sucateada há quase uma década.

O Rio Grande do Sul, seguindo a lógica mundial do crescimento econômico, da globalização dos oligopólios e mercados concentrados, continua caminhando para o empobrecimento de sua matriz produtiva e, ao mesmo tempo, comprometendo ainda mais seu ambiente. Estaremos à beira de uma Síndrome de Detroit? Quem ganha com isso?

 

 

 

 

  
             
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